Na Brasa

Como repassar taxa do cartão espetinho sem perder cliente

Aprenda como repassar a taxa da maquininha no preço do espetinho sem assustar a clientela. Veja a lei, dupla precificação e como calcular seu lucro real.

Por Na Brasa. Publicado em . 10 min de leitura.

Resposta curta: O repasse da taxa do cartão no espetinho é permitido por lei, desde que o cliente seja avisado antes da compra com uma placa clara na barraca. Para embutir os juros sem assustar a clientela, você pode usar a dupla precificação, oferecendo um preço menor no dinheiro ou Pix e um valor cheio no crédito e débito. O segredo é calcular o preço de venda já considerando a maior taxa da sua maquininha, garantindo que o lucro real pague a carne do dia seguinte.

Você encerra a noite, guarda a churrasqueira, limpa a calçada e vai bater o caixa. O movimento foi excelente, as caixas térmicas estão vazias. Mas, quando você olha o saldo que vai cair na conta bancária no dia seguinte, o dinheiro parece curto. Onde foi parar o seu lucro? Grande parte dele ficou preso na maquininha de cartão.

Para quem vende na rua, cada centavo conta. Você já tem o custo do carvão, da carne, dos acompanhamentos e das embalagens. Quando o cliente paga no crédito, a operadora do cartão morde uma fatia que sai direto da sua margem. Aprender a repassar esse custo é uma questão de sobrevivência para o seu ponto.

Como a taxa do cartão come o lucro da barraca de espetinho?

Antes de falar de repasse, você precisa entender exatamente o que está pagando. Quando você passa um cartão, a operadora cobra o MDR (Taxa de Desconto do Comerciante, do inglês Merchant Discount Rate). Essa é a taxa percentual cobrada por cada transação, que varia se a venda foi no débito, crédito à vista ou crédito parcelado.

Além disso, como quem vende na rua geralmente precisa do dinheiro no dia seguinte para ir ao açougue, existe a Taxa de Antecipação. Você paga um juro extra para receber amanhã um dinheiro que, no crédito, o banco só te pagaria daqui a 30 dias.

O impacto disso no espetinho é brutal.

Exemplo: imagine que você vende um espeto a R$ 10,00. O seu custo de produção (carne, palito, carvão, tempero) é de R$ 5,00. Seu lucro bruto parece ser R$ 5,00. Porém, se a sua taxa de crédito com antecipação for de 5%, a máquina fica com R$ 0,50. Isso significa que a taxa comeu 10% do seu lucro real. Se você está indeciso entre comprar espetinho pronto ou fazer em casa, lembre-se que a margem de quem compra pronto já é mais apertada, tornando a taxa do cartão um vilão ainda maior.

É permitido por lei repassar a taxa da maquininha para o cliente?

Muitos vendedores de rua têm medo de cobrar a taxa do cliente e acabar arrumando confusão ou sendo denunciados ao Procon. Mas a verdade é que a lei está do seu lado.

A Lei Federal nº 13.455/2017 autoriza explicitamente que comerciantes ofereçam preços diferenciados para bens e serviços em função do prazo ou da forma de pagamento. Ou seja, é legal cobrar um valor no dinheiro e outro no cartão de crédito.

No entanto, a mesma lei e o Código de Defesa do Consumidor (CDC) exigem transparência. O cliente não pode ser pego de surpresa na hora de digitar a senha. Você é obrigado a informar os preços de forma clara no seu ponto de venda. Uma placa de preços para espetinho bem legível, pendurada na barraca, resolve esse problema e evita qualquer dor de cabeça.

Quais são as opções para cobrar os juros do cartão na rua?

Existem três caminhos principais para lidar com as taxas da maquininha na sua barraca. Cada um tem suas vantagens e desvantagens, e a escolha depende muito do perfil dos seus fregueses.

1. Preço único (Taxa embutida para todos)

Neste modelo, você calcula o custo do seu espeto já com a pior taxa (crédito) e cobra o mesmo valor de todo mundo, seja no dinheiro, Pix ou cartão.

  • Vantagem: Facilita o troco e não gera perguntas dos clientes. É o modelo mais rápido para trabalhar quando a barraca está lotada.
  • Desvantagem: O cliente que paga em dinheiro vivo ou Pix acaba pagando mais caro para cobrir o custo de quem passa o cartão. O seu preço geral pode parecer um pouco mais alto que o da concorrência.

2. Dupla Precificação (Desconto no dinheiro/Pix)

Aqui, você tem o "Preço Cheio" (que já inclui a taxa do cartão) e o "Preço Promocional" (para quem paga no dinheiro ou Pix). É a estratégia mais usada por quem vende comida na rua.

  • Vantagem: Incentiva o cliente a pagar no dinheiro ou Pix, colocando o valor total direto na sua mão, sem intermediários.
  • Desvantagem: Exige que você tenha uma tabela clara de preços. Também dá um pouco mais de trabalho mental na hora de somar comandas grandes.

3. Acréscimo na hora da venda

Você cobra R$ 8,00 no espeto, mas se o cliente puxa o cartão, você avisa: "No cartão tem um acréscimo de 1 real, fica R$ 9,00".

  • Vantagem: Você só repassa o custo exato quando ele existe.
  • Desvantagem: O cliente de rua detesta isso. Soa como uma punição. É muito melhor oferecer um "desconto" no dinheiro do que anunciar um "acréscimo" no cartão, mesmo que a matemática final seja a mesma. O repasse de taxa do iFood funciona de forma parecida: o cliente aceita pagar mais caro no app pela conveniência, mas na calçada, a abordagem psicológica precisa ser o desconto à vista.

Como fazer o cálculo certo para embutir a taxa no preço?

Um erro muito comum do churrasqueiro é calcular o repasse somando a porcentagem direto no valor. Se você quer receber R$ 10,00 limpos e sua taxa é de 5%, você não pode simplesmente cobrar R$ 10,50.

Se você passar R$ 10,50 na máquina, ela vai descontar 5% em cima dos R$ 10,50 (que dá R$ 0,52) e você vai receber R$ 9,97. Você perdeu 3 centavos. Em uma noite vendendo 200 espetos, os centavos viram reais que saem do seu bolso.

Para fazer a conta exata, você deve usar a calculadora de preço de espetinho ou aplicar a seguinte fórmula de divisão:

Preço de Venda = Preço Desejado Líquido ÷ (1 - Porcentagem da Taxa)

Transforme a porcentagem em número decimal (5% vira 0,05). Então, faça: 1 - 0,05 = 0,95. Agora divida: R$ 10,00 ÷ 0,95 = R$ 10,52.

Se você cobrar R$ 10,52, a máquina vai tirar 5% (R$ 0,52) e você vai receber exatos R$ 10,00.

Veja uma tabela de exemplo de como montar seus preços na dupla precificação:

Produto Preço Dinheiro/Pix (Desejado) Taxa de Crédito (Exemplo: 4,5%) Cálculo Correto (Valor ÷ 0,955) Preço Sugerido no Cartão
Espeto Simples R$ 8,00 R$ 0,36 R$ 8,37 R$ 8,50
Jantinha Simples R$ 15,00 R$ 0,67 R$ 15,70 R$ 16,00
Cerveja Lata R$ 6,00 R$ 0,27 R$ 6,28 R$ 6,50
Combo Completo R$ 25,00 R$ 1,12 R$ 26,17 R$ 26,50

Nota: Os valores de taxas variam de acordo com a sua operadora e plano contratado. Consulte sempre o contrato da sua maquininha.

O que acontece quando o cliente pede para parcelar a jantinha?

É sexta-feira, chega uma família na sua barraca. Eles pedem espetos, refrigerantes, jantinhas, e a conta dá R$ 140,00. Na hora de pagar, o cliente pergunta: "Faz em duas vezes?".

O parcelamento é uma armadilha para o vendedor de rua. As taxas de crédito parcelado são muito maiores do que as à vista, e a taxa de antecipação incide sobre cada parcela. Se você assumir esse custo, vai perder boa parte do lucro de uma venda excelente.

A melhor saída é entrar nas configurações da sua maquininha de cartão e ativar a opção de Parcelado Comprador. Dessa forma, você digita os R$ 140,00, escolhe o número de parcelas, e a própria máquina calcula o juros e cobra do cliente. O cliente vê na tela quanto vai pagar de juros antes de colocar a senha, e você recebe os seus R$ 140,00 líquidos (descontada apenas a taxa base à vista).

Pix também tem taxa que precisa ser repassada?

O pagamento via Pix revolucionou as vendas de rua porque o dinheiro cai na hora e, para a grande maioria das contas de pessoa física (CPF), não tem taxa nenhuma. É como receber dinheiro em espécie, só que sem o risco de assalto e sem a dor de cabeça de arrumar troco.

Porém, se você tem um CNPJ e usa uma conta PJ para MEI, alguns bancos cobram uma pequena taxa ou tarifa fixa por cada transferência recebida via Pix. Caso você pague essa taxa, ela deve ser tratada como um custo fixo do seu negócio. Não repasse a taxa do Pix diretamente para o cliente, pois o consumidor brasileiro já se acostumou com a ideia de que "Pix é de graça". O ideal é embutir esse custo operacional no preço base do seu espetinho.

Como avisar a clientela de rua sobre preços diferentes sem gerar confusão?

A regra de ouro na rua é evitar atritos. O cliente quer comer bem, pagar rápido e ir embora satisfeito. Para cobrar a taxa do cartão sem desgastar a relação, siga estes passos:

  1. Tenha uma placa gigante: Não escreva miudinho no canto do cardápio. Coloque uma placa de lona ou um quadro negro bem visível dizendo: "Preços Promocionais para Pagamento em Dinheiro ou Pix. Consulte valores para Crédito e Débito".
  2. Abordagem positiva: Quando o cliente pedir a conta, não pergunte "Vai ser no cartão com juros?". Pergunte: "No Pix ou dinheiro tem desconto, como o senhor prefere?". Você transforma a cobrança de taxa em um benefício.
  3. Cardápio claro: Se você trabalha com comandas nas mesas, tenha as duas colunas de preço impressas. Assim, o cliente decide o que é melhor para o bolso dele antes mesmo de pedir.

Como controlar o lucro real no fim da noite sem depender de caderno?

Fazer essa conta de cabeça, no meio da fumaça, atendendo três clientes ao mesmo tempo e cuidando para a carne não passar do ponto, é quase impossível. Você acaba cobrando errado, perdendo dinheiro e chegando em casa sem saber se a noite realmente valeu a pena. Pior ainda se você tiver valores pendurados e precisar de um controle de fiado anotado em papel de pão.

É para resolver isso que o aplicativo Na Brasa foi criado.

Ele é um sistema feito exclusivamente para quem vende espetinho. O app roda direto no navegador do seu celular (tecnologia PWA), sem precisar baixar na loja de aplicativos, e continua funcionando mesmo se a internet 4G da rua cair (ele sincroniza os dados depois).

Você cadastra as taxas da sua maquininha apenas uma vez no sistema. Na hora do movimento, você vende com dois toques na tela e gerencia comandas com pagamentos divididos por mesa. Quando a noite acaba e você vai bater o caixa, o Na Brasa cruza o que foi vendido com a sobra que voltou, compara o dinheiro esperado com o que tem na gaveta, e te dá o relatório completo da noite. Ele desconta automaticamente as taxas de cartão e te diz o lucro real da noite. Você também pode ter acessos separados (login de dono e login de ajudante).

Você pode fazer um teste grátis por 4 dias para ver como o sistema organiza a sua barraca e fecha o seu caixa. Depois do teste, o sistema custa R$ 29,90 por mês — um valor que se paga sozinho só de evitar os erros de troco e as taxas de maquininha calculadas errado.

Próximo passo

Agora que você já sabe como o repasse funciona e que a lei te protege, o próximo passo é atualizar a sua tabela de preços. Sente com as taxas da sua maquininha, aplique a fórmula de divisão que ensinamos para encontrar o preço certo no cartão e mande fazer uma placa nova para a sua barraca. E se você quiser acabar com a dor de cabeça da matemática na hora de fechar o caixa, crie a sua conta no sistema para espetinho Na Brasa e deixe o aplicativo calcular o seu lucro de verdade todas as noites.

Perguntas frequentes

É crime cobrar a taxa da maquininha do cliente?+

Não é crime. A Lei 13.455/2017 autoriza os comerciantes a oferecerem preços diferentes dependendo da forma de pagamento, seja dinheiro, cartão de débito ou crédito.

Como calcular o repasse da taxa do cartão?+

Não basta somar a porcentagem. Você deve dividir o preço desejado por 1 menos a porcentagem da taxa. Exemplo: se quer receber R$ 10 e a taxa é 5%, a conta é 10 dividido por 0,95, que resulta em R$ 10,52.

Posso ter um preço para dinheiro e outro para cartão?+

Sim, essa prática é chamada de dupla precificação e é permitida por lei. O único requisito é que os dois preços fiquem claramente visíveis para o cliente antes de ele fazer o pedido.

Quem paga a taxa de parcelamento do cartão?+

O vendedor pode absorver a taxa e diminuir seu lucro, ou configurar a maquininha para repassar os juros do parcelamento direto para o cliente (parcelado comprador). Na rua, a segunda opção é a mais recomendada.

O cliente pode reclamar do acréscimo no cartão?+

O cliente pode questionar, mas se você tiver um aviso visível na barraca informando que os preços no cartão são diferentes, você está amparado pela lei e pelo Código de Defesa do Consumidor.

Preciso avisar o cliente sobre a taxa do Pix?+

Para o cliente pessoa física, o Pix costuma ser gratuito. Se a sua conta pessoa jurídica cobra taxa para receber, esse custo é operacional seu e deve ser embutido no custo fixo da barraca.

Qual é a melhor maquininha para vender espetinho?+

Não existe uma única melhor, pois depende do seu volume de vendas. Para rua, busque máquinas com boa conexão de chip, bateria de longa duração e taxas de antecipação baixas para o dia seguinte.

Continue lendo